IA não reduz trabalho, intensifica. E você já sabe disso.
Uma pesquisa de 9 meses com 200 devs mostra que ferramentas de IA estão criando um novo tipo de burnout: você produz mais, mas termina o dia mais exausto. O problema? Você está trocando tempo de pensar por tempo de executar.
Você conhece a sensação: são 15h, você já deployou duas features, refatorou um módulo inteiro, e criou três PRs. Tecnicamente, foi um dia produtivo. Mas você está destruído. O cérebro não consegue processar mais nada.
Uma pesquisa publicada essa semana na Harvard Business Review colocou números nesse fenômeno. Aruna Ranganathan e Xingqi Maggie Ye, pesquisadoras da Berkeley Haas School of Business, acompanharam 200 funcionários de uma empresa de tecnologia americana durante 9 meses (abril a dezembro de 2025) para entender como IA está mudando o trabalho.
A conclusão? IA não reduz trabalho. Ela intensifica.
O ritmo novo (e exaustivo)
O que as pesquisadoras encontraram é algo que qualquer dev usando Copilot, Claude Code ou agentes de IA já sente no corpo:
“IA introduziu um novo ritmo no qual trabalhadores gerenciam múltiplos threads ativos simultaneamente: escrevendo código manualmente enquanto IA gera uma versão alternativa, rodando múltiplos agentes em paralelo, ou ressuscitando tarefas abandonadas porque a IA poderia ‘cuidar delas’ em background.”
A sensação de ter um “parceiro” que ajuda cria momentum. Dá pra fazer mais. Muito mais. O problema é que esse “muito mais” vem com um custo que não aparece em nenhuma métrica de sprint:
- Troca constante de contexto — você está revisando output de um agente enquanto outro roda em paralelo
- Verificação contínua — cada geração precisa ser checada, ajustada, validada
- Tarefas abertas se acumulam — porque “a IA pode lidar”, você inicia mais coisas do que deveria
O resultado é uma sobrecarga cognitiva disfarçada de produtividade.
Simon Willison confirma: é exaustivo
Simon Willison, criador do Datasette e uma das vozes mais lúcidas sobre LLMs na comunidade dev, comentou o artigo com uma observação que ressoa:
“I’m frequently finding myself with work on two or three projects running parallel. I can get so much done, but after just an hour or two my mental energy for the day feels almost entirely depleted.”
Uma ou duas horas. Esse é o novo limite antes de atingir exaustão. Compare com um dia tradicional de código onde você podia manter foco sustentável por blocos de 3-4 horas.
E tem mais: Willison menciona que conhece pessoas perdendo sono porque ficam presas no loop de “só mais um prompt”. A gamificação acidental da produtividade por IA é real — e ninguém está contabilizando o custo.
O trade-off que ninguém discute
Nos comentários do Hacker News, um dev resumiu perfeitamente o problema:
“I feel I’m trading thinking time for execution time, and understanding time for testing time. I’m not yet convinced I like those tradeoffs.”
Leia de novo. Tempo de pensar por tempo de executar. Tempo de entender por tempo de testar.
Isso é profundo. O que as ferramentas de IA estão fazendo é comprimir a parte “fazer” do trabalho — mas não a parte “decidir se vale fazer”. Na verdade, elas estão expandindo a execução às custas da reflexão.
O mesmo dev continua:
“Agentic development pulls me down rabbit holes and makes me lose the plot and focus. Traditional development doesn’t — its side effects apparently keep me focused and in control.”
Rabbit holes. Perder o foco. Sair do controle. Isso não é produtividade. É agitação com resultado.
O dedo na ferida
Vamos ser diretos sobre o que esses dados revelam:
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Métricas de produtividade estão quebradas: Se você mede “linhas de código” ou “PRs por semana”, IA vai inflar esses números enquanto destrói seu time. A intensidade não aparece em Jira.
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“Parceiro de IA” é uma metáfora perigosa: Parceiros dividem carga. IA cria carga — de verificação, de contexto, de decisão. Você não ganha um junior. Você ganha uma máquina de criar tarefas.
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Multitasking com IA é ainda pior que multitasking tradicional: Porque cada thread precisa de supervisão ativa. Você não delega. Você multiplica.
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O hype ignora custos humanos: Empresas querem “mais adoção de IA” sem entender que mais IA = mais burnout, se não houver estrutura.
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Devs sêniors estão sentindo primeiro: Porque são os que estão usando ferramentas mais avançadas, mais cedo. O burnout está chegando antes nos mais experientes.
O que fazer? (checklist realista)
A HBR sugere que empresas criem uma “prática de IA” — estruturas para uso sustentável. Mas vamos ser honestos: sua empresa provavelmente não vai fazer isso tão cedo. Então:
Para você, agora:
- Time-box sessões com agentes (max 90 minutos, depois pausa obrigatória)
- Não rode múltiplos agentes em paralelo — a sensação de “parceiro” é ilusão
- Antes de iniciar uma task com IA, pergunte: “eu faria isso sem IA?” — se não, talvez não valha fazer
- Track seu nível de energia, não só output
Para seu time:
- Discuta abertamente: IA está ajudando ou criando ansiedade?
- Considere dias “sem agentes” para trabalho que precisa de foco profundo
- Revise métricas — PRs/semana não conta história completa
Não espere:
- Que ferramentas de IA venham com limites de uso saudável
- Que seu corpo aguente indefinidamente
- Que a indústria resolva isso antes de você queimar
O grande quadro
Simon Willison fecha com uma observação certeira:
“I think we’ve just disrupted decades of existing intuition about sustainable working practices. It’s going to take a while and some discipline to find a good new balance.”
Décadas de intuição sobre trabalho sustentável. Destruídas em meses.
A promessa da IA era: fazer mais com menos esforço. A realidade está sendo: fazer muito mais, com mais esforço, disfarçado de facilidade.
A boa notícia? Agora temos pesquisa mostrando o problema. Não é frescura. Não é falta de adaptação. É um fenômeno real, medido, documentado.
A má notícia? Você provavelmente vai ignorar isso e continuar no loop de “só mais um prompt”.
Eu também.
Fontes
- AI Doesn’t Reduce Work—It Intensifies It — Harvard Business Review, Feb 2026
- AI doesn’t reduce work, it intensifies it (commentary) — Simon Willison, Feb 2026
- Hacker News Discussion — 53+ points